O câncer não é uma doença específica, e sim uma classe de doenças caracterizadas pelo crescimento descontrolado de células que antes eram normais, mas devido à uma série de mutações genéticas, se tornaram destrutivas, não mais respondendo aos comandos do corpo.
É fundamentalmente uma doença genética. Quando o processo neoplásico (tumor) se instala, a célula-mãe transmite às células filhas a característica neoplásica, através da mitose. Isso quer dizer que no início de todo o processo está uma alteração no DNA de uma única célula.
Temos que ter em mente que uma só alteração no DNA não causa câncer. São necessárias várias mutações em seqüência, que ao mesmo tempo não sejam mortais para a célula, e causem lesões estruturais suficientes para causarem uma desregulação no mecanismo de crescimento e multiplicação.
Vários fatores podem causar ou contribuir diretamente para que essa mutações genéticas ocorram nas células. Os mais comuns são o aumento da expectativa de vida da população em geral, porque quanto mais tempo uma pessoa tem para expor seu material genético a um fator qualquer que possa alterá-lo, maior será a chance disso acontecer. As células têm um mecanismo de reparo do DNA. Mutações genéticas mínimas ocorrem muito freqüentemente, em todas as pessoas. Só que não desenvolvemos câncer rapidamente porque nossos mecanismos de reparo são em geral, eficientes. Só que quanto mais tempo se passar, maior será a chance de um "escape". Se vivêssemos até 200 anos, todos provavelmente teríamos algum tipo de câncer. Isso porque passou tempo suficiente para que se acumulassem mutações genéticas em nossas células.
Se o tempo é um fator importante para permitir ao organismo uma maior exposição a elementos potencialmente lesivos para o DNA celular, a exposição a uma maior quantidade desses elementos lesivos também exerce grande importância no desenvolvimento do câncer.
A esses elementos lesivos que acabam por contribuir com um aumento na probabilidade de ocorrência de lesões no DNA, e portanto, aumento da incidência de tumores, é dado o nome de agentes cancerígenos, ou carcinógenos.
O tabaco está entre os que mais contribuem, uma vez que há jovens e adultos que fumam e crianças que o fazem passivamente, pois ele causa e/ou contribui para o desenvolvimento de aproximadamente um terço de todos os cânceres, principalmente em pulmão, esôfago, bexiga, cabeça e pescoço. O câncer relacionado ao tabaco é, contudo, o mais “fácil” de se resolver, devido a sua óbvia, barata e 100 % eficaz prevenção, que é a abstenção.
Quando a prevenção do câncer não é possível, a detecção precoce é a melhor estratégia para reduzir a mortalidade. Campanhas de esclarecimento da população, e também de profissionais de saúde são feitas nesse sentido. Infelizmente, no Brasil são bastante falhas.
A radiação é um tipo de agente cancerígeno que age lesando diretamente o DNA da célula. A inflamação crônica de algum órgão, como o intestino, por exemplo, causa aumento da divisão celular, e aumenta a chance de alguma mutação. Dessa forma, gorduras animais, que causam um tipo de inflamação na mucosa intestinal, são carcinógenos "indiretos".
É por essa razão que se orienta uma dieta com fibras. Essa dieta aumenta o volume do bolo fecal, diminuindo o tempo de exposição de todas as substâncias à mucosa intestinal, além de diminuir a concentração da gordura animal na massa fecal total.
A ação de hormônios é semelhante. Eles aceleram a divisão celular de alguns tipos de células, facilitando a ocorrência de mutações.
O fumo desenvolve uma ação carcinogênica mista. Ele tanto é capaz de lesar o DNA das células do corpo inteiro, diretamente, quanto apenas das da mucosa, causando uma inflamação crônica nas mucosas da boca, garganta, brônquios e pulmões. É por isso que o fumo pode causar também câncer de bexiga e pâncreas, por exemplo, não ficando limitado às vias aéreas.
As neoplasias ditas hereditárias estão relacionadas com a perda de genes bloqueadores de tumor. Isso explica a quase totalidade das doenças neoplásicas que existem em crianças, geralmente produzidas por um aumento da predisposição ao desenvolvimento de tumores já ao nascimento.
Outras situações em que pode ocorrer lesão direta do DNA é quando ocorre invasão celular por vírus. Como exemplo mais evidente temos o vírus das hepatites B e C, que a longo prazo podem causar câncer hepático. Também há a associação do papilomavirus (HPV) com o câncer de colo de útero.
A oncologia (estudo do câncer), nos últimos anos, tornou-se uma complexa e interessante disciplina que conta com o auxílio de outras especialidades, como cirurgia, pediatria, patologia, radiologia, psiquiatria e outras, que faz do sucesso um mérito de todas essas especialidades trabalhando juntas. Há três passos principais no tratamento do câncer.
O primeiro passo trata de curar os pacientes, para devolvê-los à sociedade. Deve ser tentado em todos os tipos de câncer, mesmo naqueles em que a chance de cura é pequena. Necessita uma atitude de esperança e determinação para se derrotar dificuldades e perigos, e às vezes para se enfrentar insucessos.
Se mesmo assim a cura não é possível, o médico deve apontar o segundo passo, que seria uma longa e satisfatória suavização da doença, deixando o paciente bem consigo mesmo pelo maior tempo possível. Quando essa chance é ainda remota, o objetivo passa a ser controlar a doença e seus sintomas através de tratamentos.
O objetivo final visa o conforto do paciente, e não apenas o prolongamento de uma vida sofrida. O médico deve ajudar o paciente a manter a sua dignidade, entender sua fraqueza, e evitar sentimentos de frustração, animosidade ou até excessiva amizade, que podem acabar por prejudicá-lo. Ou seja, o paciente deve ter uma vida o mais tranqüila possível.
Os tratamentos utilizados para a tentativa de cura do câncer são os seguintes:
RADIOTERAPIA: é o mais utilizado para tumores localizados que não podem ser eliminados totalmente, ou para tumores que costumam desaparecer após a cirurgia. Tem sérios efeitos colaterais, principalmente por causa da lesão de tecidos normais próximos ao tumor. A quantidade de radiação utilizada depende do tipo de tumor, e é medida em rads.
QUIMIOTERAPIA: foi o primeiro tratamento que afeta o corpo de forma total. Na maioria das vezes, consiste em uma associação de drogas, pouco eficazes se utilizadas sozinhas, pois nos tumores há sub-populações de células com sensibilidades diferentes às drogas anti-neoplásicas. Os mecanismos de ação das drogas são diferentes, mas sempre acabam lesando o DNA celular. A toxicidade contra células normais é a causa dos efeitos colaterais (náuseas, vômitos, inibição da atividade da medula óssea). Pode ser usada como tratamento principal (leucemias, linfomas, câncer de testículo), mas normalmente é auxiliar, após ser feito um tratamento cirúrgico ou radioterápico.
TERAPIA BIOLÓGICA: usa-se substancias que modificam a resposta biológica do corpo frente ao câncer, "ajudando-o" a combater a doença (linfoquinas, anticorpos monoclonais). Usa-se também drogas que melhoram a diferenciação das células tumorais, tornando-as de mais fácil controle. Este tipo de tratamento, em estudo, é o mais promissor para o futuro.
O sucesso da terapia contra o câncer depende da escolha da combinação de dois ou mais modalidades de tratamento, necessitando muito a cooperação entre diferentes especialidades.
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